[duplicidade]

Tony Gilroy deve ter se perguntado ao menos uma vez como poderia superar as expectativas em seu segundo trabalho de direção logo depois de obter um sucesso inesperado com sua fita de estréia. Quando escrevi sobre Conduta de Risco, comentei que provavelmente Gilroy era a maior revelação daquele ano, algo que foi confirmado de imediato – não é qualquer diretor estreante que é indicado ao Oscar. Duplicidade foi vendido como um romance de espionagem que aparentemente não passaria de uma trama fácil de atrair multidões, em especial devido ao apelo de seus protagonistas. Para minha surpresa, o longa não só traz as características que fizeram de Michael Clayton um grande filme (montagem ágil e não linear, diálogos espertos e um elenco de fazer inveja), como é superior a qualquer coisa lançada no primeiro semestre americano – à exceção, talvez, de vocês sabem qual filme. A cena dos créditos iniciais (que já demonstra bem seu estilo nem humorado) traz Tom Wilkinson e Paul Giamatti discutindo ao ponto de começar ao brigar, tudo por causa da rivalidade entre suas empresas. Em seguida conhecemos os sedutores espiões interpretados por Clive Owen e Julia Roberts, que veem tal disputa como uma oportunidade perfeita para ficarem milionários. Entretanto, como muitos podem desconfiar, nenhum plano é totalmente perfeito.

Gilroy sabe como conduzir uma trama extremamente interessante do começo ao fim, que encanta de imediato quando vemos diálogo entre os protagonistas exatamente igual ao que ocorreu numa cena anterior, somente modificando o local onde ocorre essa ação. É um filme construído aos poucos, que em vez de percorrer o caminho menos complicado e entregar tudo ao espectador, prefere ir revelando aos poucos os detalhes que constituem uma grande conspiração e que por isso mesmo resulta memorável. John Gilroy, novamente trabalhando com o irmão, tem outro grande trabalho de montagem, o qual pode deixar o espectador confuso às vezes, porém sabe lidar com os flashbacks de maneira impecável – e o mesmo pode ser comentado em relação à fotografia de Robert Elswit e à trilha de James Newton Howard, todos repetindo a excelência de Conduta de Risco. Ainda com atuações marcantes (os coadjuvantes Wilkinson e Giamatti estão especialmente bem, enquanto a química entre Owen e Roberts é perfeita), fica complicado explicar porque exatamente Duplicidade não foi um hit de bilheteria. O desfecho pode ter contribuído para isso, mas prefiro pensar que o grande público não estava preparado para uma história extremamente inteligente e nem sempre otimista logo nesses tempos de crise.

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[CINEMA] Duplicity, Estados Unidos – 2009. De: Tony Gilroy. Com: Julia Roberts, Clive Owen, Tom Wilkinson, Paul Giamatti, Tom McCarthy. 125 min. romance.