Não é só da imprensa italiana que surgem comentários sobre a queda na qualidade das produções selecionadas para o 65º Festival de Veneza. Críticas à atual organização já apareceram em diversos jornais europeus e até mesmo no Brasil. Acostumado com uma seleção tão diversificada que traz produções hollywoodianas e fitas independentes, Marco Müller, diretor do Festival, optou nesse ano por uma seleção mais alternativa e sem grandes estrelas no tapete vermelho, o que de certa forma tira o brilho do evento e diminui sua importância. Mas nada disso seria problema se os filmes que fazem um panorama do cinema mundial (a maioria são da Europa e Ásia) correspondessem às expectativas como aqueles vistos em Cannes. Ao todo, já foram exibidas 15 das 21 produções que concorrem ao Leão de Ouro, mas segundo Luiz Zanin Oricchio (Estadão) nenhum chegou a ser excepcional. Aí é que entram as chances da produção ítalo-brasileira Birdwatchers, a qual ganhou calorosos elogios da crítica e parece de destacar em meio a tantas decepções. Rachel Getting Married (comentado abaixo) foi outro que agradou bastante. Para quem acompanha o Festival, a alternativa é recorrer a mostras paralelas e sessões de filmes fora de competição, que até agora entregaram dois longas de excelente repercussão entre os jornalistas: Queime Depois de Ler, dos Coen, e principalmente 35 Rhums, da francesa Claire Denis – segundo muitos, é inexplicável como esse filme ficou de fora da seleção oficial. Com a competição chegando ao final no sábado, resta alguma expectativa para três filmes americanos ainda a serem exibidos: Hurt Locker (de Kathryn Bigelow), Vegas (de Amir Naderi) e o longa de encerramento do Festival The Wrestler (de Darren Aronofsky).

Mas, voltando aos filmes exibidos, hoje foi dia de Rachel Getting Married, novo longa de Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes) protagonizado por Anne Hathaway. Segundo o UOL, Kym é uma garota que durante dez anos tem entrado e saído de clínicas de reabilitação, voltando para casa às vésperas do casamento da irmã Rachel, trazendo à tona ressentimentos e acusações. O drama familiar foi elogiado de forma quase unânime, inclusive com muitos aplausos nas suas duas sessões. Ao que parece, os maiores destaques de Veneza continuam sendo as produções americanas, mesmo com uma seleção mais internacional que em outros anos. Parte disso se deve justamente à falta de qualidade de outros longas, mas também aos méritos do próprio trabalho do Demme – teve críticas bastante favoráveis e que compararam sua direção aos dramas de Robert Altman (em especial Cerimônia de Casamento, no qual é livremente inspirado). E, ao contrário do que foi visto até o momento, Rachel Getting Married é o primeiro filme do Festival com reais chances de indicação ao Oscar, especialmente para a Anne Hathaway (que lidera as apostas para o prêmio de melhor atriz no Festival) e, quem sabe, Debra Winger.
Comentários da imprensa [•favorável; •desfavorável; •dividido]
• “Espontaneamente divertido, Rachel é um belo tributo de Jonathan Demme ao cinema de Robert Altman. Repleto de performances soberbas, em especial de Anne Hathaway como protagonista e Debra Winger num papel secundário (mas que ela torna memorável), sem dúvida o filme será considerado para os principais prêmios da temporada.” Fionnuala Halligan [Screen Daily]
• “A primeira coisa a dizer é que Demme está de volta à sua melhor forma, com um tipo de filme no qual ele é bom, após uma década de fracassos artísticos e/ou comerciais. A segunda observação aqui é que tanto Robert Altman como John Cassavetes ficariam orgulhosos dessa realização de Demme, um conto familiar pouco estruturada e intenso emocionalmente. Hathaway, no maior desafio de sua carreira, entrega um desempenho revelador.” Emanuel Levy
• “Após trabalhos pouco satisfatórios no cinema, Rachel Getting Married é um sopro de cinema honesto cujo o toque de leveza fornece uma onda de conflitos familiares, fazendo um balanço perfeito de sorrisos e lágrimas. Anne Hathaway é barbada nas premiações.” Deborah Young [The Hollywood Reporter]
• “Um drama familiar filmado no estilo documental marca a participação do diretor Jonathan Demme não só em Veneza, mas também muito provavelmente no Oscar 2009. O filme traz uma Anne Hathaway em grande momento.” Ivan Finotti [Folha de S.Paulo]
AINDA EM VENEZA…
The Sky Crawlers: mais uma animação japonesa em competição, esse longa do diretor Mamoru Oshii é completamente diferente da produção de Hayao Miyazaki, mostrando pilotos contratatos para participar de uma guerra-espetáculo para ser assistida por espectadores. No elenco, Rinko Kikuchi. O júri irá preferir essa animação adulta ou o conto infantil de Miyazaki? mais
Teza: filme do etíope Haile Gerima, é uma obra que trata da recente e violenta história de seu país, mas também aborda a questão da ignorância. Recebeu algumas críticas pela forma como trata o tema, mas até o momento é o segundo preferido pelo público no ranking do Festival (Ponyo lidera) e apresentou um candidato ao prêmio de melhor ator, Aaron Arefe. mais
Soldado de Papel: único concorrente russo em competição, o longa de Aleksey German Jr. foi bem aplaudido ao fim de sua sessão, mesmo com algumas críticas por causa de sua estrutura não-linear. Mas há aqueles que apreciaram sua atmosfera delirante. A situação atual da Rússia e Geórgia pode favorecer o longa de tema político (algo apreciado por esses Festivais). mais
Noite de Cão: filme alemão de Werner Schroeter, não agradou e foi mais uma das produções vaiadas nesse Festival. A trama mostra uma distopia política numa cidade sitiada, dominada por policiais violentos e políticos corruptos. O problema do longa é sua estética que parece por demais datada. Confuso ao extremo, é mais um que não tem chance alguma de premiação. mais
A Erva do Rato: mais um filme brasileiro fora de competição, A Erva do Rato (de Julio Bressane, o qual apresentou Cleópatra no ano passado), o filme é baseado em contos de Machado de Assis. Novamente trabalhando com Alessandra Negrini (que esteve no Festival ao lado do diretor e de seu companheiro de cena, Selton Mello), o longa teve ótima recepção, sendo aplaudido. mais


13 comments
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Setembro 3, 2008 às 10:01 pm
Luciano Lima
Tocou na ferida agora. Minha empolgação está toda em The Wrestler. Aronofsky subiu para o posto de “Promessas” depois que David Fincher agora está seguro na colocação de Top entre os que realmente sabem o que estão fazendo (mesmo lendo que alguns críticos não gostaram do que foi mostrado em Benjamin Button).
Torço de verdade para que The Wrestler seja bem recebido! Eu não engoli até hoje as vaias para The Fountain!
Desculpa… empolguei tanto com a proximidade do filme que nem comentei os exibidos. hehehee
Abraço!
Setembro 3, 2008 às 10:19 pm
Kamila
Estava ansiosa para ver a recepção que seria dada ao filme “Rachel Getting Married”. Fiquei feliz de ver que o filme recebeu boas críticas. Acho que chegou mesmo a vez de Anne Hathaway brilhar e veremos como o filme se porta na temporada de premiações.
Sobre as críticas recebidas pelo festival neste ano: faz tempo que digo que, no sentido de antecipar o que veremos no Oscar, o TIFF – Toronto International Film Festival sempre sai na frente, nos últimos anos, pelo menos.
Setembro 3, 2008 às 11:06 pm
Rafael Carvalho
Não acredito que a ausência de grandes estrelas no Festival diminua sua importância ou que esse seja o motivo de estarem criticando tanto o evento. Acho que é uma questão de curadoria mesmo. Os filmes selecionados estão sendo considerados muito fracos, é isso. Os melhores parecem que estão nas mostras alternativas. Mas quem sabe até o fim não surge uma surpresa? E que bom que o Rachel Getting Married se safou dascríticas, o filme parece mesmo muito bom e um tanto diferente do estilo do Demme. É esperar pra ver!
Setembro 3, 2008 às 11:15 pm
Rafael Carvalho
Ah, e bom que o filme do Bressane teve boa repercussão. Estou louco pra ver Cleópatra, seu filme em cartaz aqui no Brasil. Ele, aliás, passa por uma boa fase já que foi o grande homenageado do Festival de Gramado esse ano e ainda esteve em Veneza ano passado justo com seu Cleópatra.
Setembro 3, 2008 às 11:46 pm
Vinícius P.
Luciano. Também não entendi as vaias para “Fonte da Vida”, pois se a percepção do diretor não ficou tão clara como em seus demais filmes, ao menos é uma produção artisticamente diferenciada e que merecia o respeito da imprensa que acompanhava o Festival. Acho que “The Wrestler” será a redenção do diretor em Veneza e também estou empolgado para esse filme!
Kamila. Foi com certa surpresa que recebi essas críticas a respeito de “Rachel Getting Married”. Esperava um bom filme, mas não que fosse o retorno do Jonathan Demme aos grandes trabalhos. Tomara que Anne Hathaway esteja entre as selecionadas a melhor atriz no Oscar 2009 – um prêmio em Veneza já seria ótimo.
Rafael. De certo modo concordo com seu ponto de vista. Se a seleção de Veneza fosse tão boa quanto aquela vista em Cannes nesse ano, acho que não teria problema da falta de produções americanas em competição. Mas, pelo bem do Festival, acredito que essa escassez que grandes produções diminui sua importância perante o cenário mundial. Basta ver a cobertura de sites internacionais para perceber que todos estão mais interessados em Toronto do que em Veneza – muitos acreditam até que, com o tempo, Toronto ocupe seu lugar como um dos três festivais de cinema mais importantes. Marco Müller, já temendo isso, afirmou que o próximo ano trará duas grandes produções americanas na seleção oficial. E quero muito ver “Cleópatra”, mas nem sinal do filme aqui em Pernambuco – o jeito é esperar para o DVD.
Setembro 4, 2008 às 1:52 am
Gustavo H.R.
Como é bom testemunhar o retorno de Demme à grande forma.
Setembro 4, 2008 às 2:16 am
Lucas
Estou bem curioso quanto a esse novo filme do Demme, um diretor que acho bem subestimado, pois muitos o reduz a O Silêncio dos Inocentes (que é ótimo, claro).
Setembro 4, 2008 às 1:41 pm
Pedro Henrique
Essa história de vaiar é uma grande bobagem. Os festivais estão cada vez mais “baixos”. E também torço por Demme em boa forma.
Abraço!
Setembro 4, 2008 às 2:00 pm
Vinícius P.
Gustavo. Realmente é uma maravilha isso…
Lucas. Acho que o maior trabalho dele é mesmo “O Silêncio dos Inocentes”, mas não podemos esquecer do excelente “Filadélfia” e do ótimo (e injustiçado) “Sob o Domínio do Medo”. Por isso concordo e acho que também é subestimado.
Pedro. Às vezes não dá para saber se as vaias são merecidas, mas a seleção desse ano está tão fraquinha que nem sei se concordo com seu comentário – normalmente concordaria, até porque um filme já merece respeito só por estar num Festival desses, mas essa seleção de 2008 foi a mais fraca em muito tempo…
Setembro 4, 2008 às 2:13 pm
feliperezende
Hathaway já tem minha torcida. Estava muito bem em Agente 86 e agora num filme mais sério, tem tudo pra conseguir a indicação.
Também vi alguns elogios à amante do Don Draper, Rosemarie DeWitt.
Setembro 5, 2008 às 12:46 am
Wally
Estranho que vendo seus posts acheis todos os filmes interessantes e diversificados. Aguardo muitos desses mencionados, incluindo o de Demme.
Parabéns pela cobertura, como de sempre, ótima.
Ciao!
Setembro 5, 2008 às 10:01 am
Sérgio Déda
Não venho acompanhando muito do Festival de Veneza… mas pelo que eu vi até que parece ter bons longas na disputa…
Setembro 5, 2008 às 12:12 pm
Vinícius P.
Felipe. E também a minha, adoraria se ela fosse indicada e quem sabe até ganhasse o Oscar (apesar da concorrência, que inclui Kate Winslet e Meryl Streep). E Rosemarie DeWitt parece ser outro destaque do elenco mesmo ao lado da Debra Winger.
Wally. Para um Festival desse porte, é esperado que ao menos uns 15 dos 21 filmes selecionados estejam acima da média. Nesse ano isso não ocorreu, visto que nem metade das produções chamaram a atenção dos jornalistas. Por isso a decepção com essa seleção. Obrigado, sempre aprecio seus comentários.
Sérgio. Especialmente os americanos ao lado da animação do Miyazaki.