Ratatouille, Estados Unidos. Direção: Brad Bird. Roteiro: Brad Bird, Jan Pinkava, Jim Capobianco. Elenco: Patton Oswalt, Lou Romano, Ian Holm, Peter O’Toole, Brad Garrett, Will Arnett, Janeane Garofalo.

Numa atual época em que filmes de animação tradicional praticamente inexistem, são poucas as produções desse gênero que alcançam um status relevante. Quando a Pixar apresentou Toy Story em 1995, já era uma claro sinal que novos tempos chegaram para a indústria cinematográfica, uma tecnologia nunca antes observada e que permitiu aos diretores sonharem ainda mais alto. Contudo, faltava algo, e durante muito tempo um desenho não tinha a mesma magia de clássicos como Branca de Neve e os Sete Anões e o próprio O Rei Leão (o último grande sucesso dentro da área). Algumas tentativas mostraram-se bastante efetivas, em especial aquelas vindas do cinema oriental – incluindo o notável vencedor do Oscar A Viagem de Chihiro -, mas nada supera a perfeição em todos os aspectos demonstrada em Ratatouille. Para tanto, foi necessário um cineasta com uma considerável experiência que já tinha oferecido duas preciosidades, já sendo reconhecido por outro trabalho da produtora (Os Incríveis). Brad Bird foi a escolha ideal para comandar esse filme que seria realizado pelo roteirista Jan Pinkava, um nome fundamental para o processo de criação dos personagens. Ainda assim, Brad Bird modificou uma série de detalhes da trama de Pinkava e transformou Ratatouille de um típico filme infantil num dos mais inteligentes do cinema recente. E essa é somente uma das poucas histórias envolvendo o surgimento do longa, que ainda preocupou o estúdio (no caso a Disney) por seu conteúdo ligeiramente adulto – algo não refletido nas bilheterias, visto que foi um dos maiores sucessos da Pixar.

 

 

Ainda que seja bastante recomendado para o público mais jovem, é tamanha a quantidade de referências que fica até complicado acompanhar todas as informações nesse filme que conta com um dos melhores roteiros da década. À primeira vista, a trama até que é simples: rato incompreendido por seu meio social sonha em ser chef de cozinha como seu ídolo Gusteau; assim, aparece num famoso restaurante francês e de forma inesperada ajuda um aspirante atrapalhado do local. É assim que conhecemos a dupla Remy e Linguini, numa história que vai muito além do que isso pode sugerir. Mas é através da temida figura do crítico culinário Anton Ego que surge os maiores méritos do longa: a maneira rigorosa de suas avaliações faz com que seja um tanto desagradável em determinado momento (assim como todo bom crítico é conhecido por vez ou outra), porém no desfecho percebemos que a paixão por aquilo que é seu instrumento de trabalho está acima de qualquer convenção necessária para manter os seus padrões inabaláveis. Tecnicamente perfeito, o longa tem um desenho de produção com detalhes mais perceptíveis do que se fosse uma produção live-action, contando também com a música memorável de Michael Giacchino – a qual complementa de forma sublime aquilo visto na tela. Ao final, o discurso antológico de Ego cai como uma luva para a proposta apresentada ao início: é exatamente essa sensação de diminuir as diferenças através da máxima de que todos podem cozinhar que Ratatouille passa, uma obra-prima para as novas gerações.

A GRANDE CENA

 

menção honrosa: Sangue Negro [There Will Be Blood, Estados Unidos] De projeto pretensioso em seu início, terminou como o mais cultuado do ano pela crítica e também pelo público fã do bom cinema. Além do cuidado típico com a técnica, vemos um Paul Thomas Anderson mais maduro, mantendo o nível excepecional na direção do elenco. Mais um acerto na carreira brilhante do cineasta que já nasceu como clássico.