Com recepção fria, Cegueira abriu a 61ª edição do Festival de Cannes nessa manhã (lá de tarde) de quarta-feira. A sessão para a imprensa teve poucos aplausos e já mostrou aquilo que deve ocorrer daqui para frente: a obra baseada no livro de José Saramago é um filme difícil à primeira impressão e que facilmente dividirá opiniões. Não sei se essa sensação indiferente ao filme é a mesma observada com O Jardineiro Fiel (que particularmente considero excelente) ou se Meirelles terá seu primeiro fracasso, mas no geral as opiniões têm sido favoráveis no que diz respeito ao aspecto visual da produção e também as interpretações de todo o elenco. É o típico caso de filme que faz pensar muito e que pode causar uma reação estranha no primeiro momento, porém certamente terá grande repercussão. À noite Cegueira terá sua exibição de gala, mas vários dos envolvidos com o filme já estão lá: além de Meirelles, compareceram ao Festival os astros Julianne Moore e Gael García Bernal, além de Alice Braga, Danny Glover, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura e o roterista Don McKellar.

Comentários da imprensa [favorável desfavorável dividido]

Ainda que seja inferior a seus filmes anteriores, Cegueira é um quadro duro e exigente que contém algumas cenas poderosas e pouco fáceis de assistir. Provocativo, pergunta aos espectadores sem fazer julgamentos de valor sobre o seu comportamento em crises extremas, contemplando a fragilidade perigosa da ordem social e em última instância o espírito coloetivo de humanidade.” Emanuel Levy

O filme, que adapta fiel e assustadamente os escritos de Saramago, sugere inúmeras idéias sobre nossa incapacidade de enxergar o que sempre esteve ali, ou de perder a capacidade de reconhecer imagens que nós sempre tivemos. Parece cair como uma luva não só para o filme, mas também para essa inesperada atividade de ver cinema e tentar apreendê-lo.” Kleber Mendonça Filho (Jornal do Commercio)

De fato, o filme exige estômago. Não só para ultrapassar os primeiros minutos, um tanto truncados, em que os personagens vão ficando misteriosamente cegos, mas para dali em diante suportar a crescente degradação humana dos doentes que são abandonados em um sanatório à própria sorte.” Diego Assis (G1)

Apesar do forte desempenho de Julianne Moore como uma solitária figura que mantém sua visão e testemunha os horrores ao redor dela, o drama de Fernando Meirelles raramente alcança a força visceral, âmbito trágico e ressonância humana da obra de Saramago.” Justin Chang (Variety)

Eu especialmente estava esperando um filme que evitaria qualquer tentativa rigorosa de empurrar metáforas na face de espectador. Isso é justamente o que Cegueira faz por via da narração de Danny Glover. Este é primeiro erro. O segundo é que não queria ser aderido àquele inferno no qual fui forçado a testemunhar o comportamento assassino e tirânico dos cegos brutos.” Jeffrey Wells (Hollywood Elsewhere)

Há um desafio considerável para superar a obra de Saramago, mas Cegueira é um filme provocativo. Entretanto, também é cinema previsível: assusta, mas não surpreende. Removendo uma fábula do conforto da página impressa para um filme às vezes pode conduzir a sua própria cegueira.” Kirk Honeycutt (The Hollywood Reporter)

Fiquei impressionado com o tratamento visual que Fernando Meirelles e o fotógrafo César Charlone dão ao tema da cegueira branca que se constitui na metáfora de José Saramago em seu filme. As interpretações são maravilhosas - Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga -, mas na maior parte do tempo senti uma admiração fria.” Luiz Carlos Merten (Estadão)

 

Cannes Watch: a recepção dividida indica que não deve surpreender como 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias no ano passado, mas é possível enxergar algum prêmio se o júri compreendeu a visão de Meirelles sobre a obra de Saramago. O destaque é a Julianne Moore, que surge como forte candidata ao prêmio de melhor atriz, enquanto o fotógrafo César Charlone tem chances de conquistar o prêmio técnico.