
Não deve ser fácil para um diretor mudar parte de seu estilo na realização de um novo projeto. Sangue Negro é diferente de tudo aquilo que o Paul Thomas Anderson já fez. Dono de alguns das melhores longas independentes que já vi (além do polêmico Boogie Nights, também realizou Magnólia), Anderson chega ao seu projeto mais ambicioso com uma enorme vontade de colocar de vez seu nome na história do cinema. O que parecia provável (mas não possível) ocorreu: ainda que seja completamente diferente daquilo já observado em sua carreira, o diretor é novamente responsável pelo melhor filme do ano. O épico (livremente inspirado na obra Oil!, de Upton Sinclair) é centrado na figura imponente de Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis, soberbo), pai solteiro e sem grande futuro que modifica sua vida após descobrir uma pequena cidade do Oeste em que existe uma grande quantidade de petróleo – se mudando para lá com o filho H.W. (o ótimo garoto Dillon Freasier). No local, terá lidar com o carismático pastor Eli Sunday (Paul Dano), construindo uma relação de ódio com este.
Não é preciso comentar que Sangue Negro é um filme tecnicamente perfeito. É nesse aspecto que vemos as maiores mudanças do P.T. Anderson em relação à direção. Comparado a um dos maiores clássicos de todos os tempos (Cidadão Kane), o filme é tão apurado no sentido técnico que poderia perfeitamente ser analisada como algum dos melhores trabalhos de Kubrick. Certamente não deve ser tão apreciado pelo espectador comum, uma vez que ousa demais em certos contextos e nem sempre se faz entendível. Isso é observado através da montagem bastante engenhosa, pois ainda que seja linear durante a maior parte da projeção, sabe exatamente qual proposta o roteiro deveria passar e não deixa todos os pontos da trama já explícitos para o espectador. No campo da reconstituição de época, então, o filme vai além do que se imaginava. A palavra “épico” realmente se aplica nesse caso, pois não esperava que fosse um longa tão grandioso. Assim, o mérito maior é do desenhista de produção Jack Fisk, que faz dos cenários uma parte essencial para o desenvolvimento da história – ajudado, claro, pela excelente fotografia de Robert Elswit e a música onipresente de Jonny Greenwood.
Contudo, um trabalho técnico visualmente perfeito não é suficiente para se ter um grande filme. Nesse caso, é impossível discordar que o Daniel Day-Lewis não está menos que brilhante. Já era de se esperar uma grande atuação por parte do ator que costuma ser o melhor aspecto de todos aqueles longas que participa. Entretanto, aqui ele supera qualquer expectativa e sabe captar perfeitamente a essência insana de seu personagem. Não seria exatamente um “vilão”, mas alguém claramente corrompido pelo meio e que faz do ramo do petróleo uma forma de evitar maiores relações com seu próximo. Ajudado pelo ótimo Paul Dano (grande injustiçado nas premiações), Day-Lewis entrega uma atuação para ficar na história – bem como o longa. Ainda que o filme seja muito mais que um trabalho de direção acima da média, fica evidente que o mérito maior deve ir para o Paul Thomas Anderson. Muitas vezes incompreendido, ele finalmente alcançou o merecido reconhecimento com esse projeto. Pode até ser exagero, mas ao término da sessão, tive que reavaliar meu conceito de obra-prima – o que, definitivamente, Sangue Negro é.





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[CINEMA] There Will Be Blood, Estados Unidos – 2007. Direção: Paul Thomas Anderson. Com: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Ciáran Hinds, Dillon Freasier, Russell Havard, Kevin J. O’Connor, David Willis, Hans Howes. 158 min. drama.

21 comments
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Fevereiro 21, 2008 às 5:09 pm
Lucas
É, cada vez mais ansioso, e provavelmente vai ser o único dos 5 indicados a melhor filme que não vou ver antes do Oscar.
Morar em buraco é fogo.
Fevereiro 21, 2008 às 5:34 pm
Kamila
Vinícius, mandarei meus palpites no Sábado!
Sobre “Sangue Negro”: O filme está perto de virar uma unanimidade, já que todos usam a palavra obra-prima para se referir a ele. Eu quero muito assistir a este filme e espero que os cinemas daqui colaborem comigo.
Bom final de semana!
Fevereiro 21, 2008 às 6:14 pm
Rogerio Scheidemantel
Minha nossa, mais uma opinião avassaladora sobre o filme.
Espero poder conferir logo esse filme, assim como a maioria dos blogueiros, que nao conseguiu ver ainda.Belo texto.
Fevereiro 21, 2008 às 6:16 pm
Pedro
Amanha vou ver Sangue Negro, esperando que ele desbanque Onde Os Fracos Não Têm Vez da minha torcida para domingo. Por enquanto No Coutry, é minha torcida e aposta para o fim de semana.
Abraço!!!
Fevereiro 21, 2008 às 6:25 pm
Vinícius P.
Pelo que vejo ninguém (até esse comentário) viu o filme, o que comprova sua péssima distribuição – uma vergonha, até por ser o longa mais indicado ao Oscar desse ano (e fico triste em saber que muita gente não poderá vê-lo antes da cerimônia do domingo). “Sangue Negro” tem minha total torcida, espero que vença todos os oito prêmios ao qual concorre. Obrigado pelos comentários e bom fim de semana para todos! ;)
Fevereiro 21, 2008 às 6:27 pm
Ramon Scheidemantel
That´s all folks!
Grande Vinícius… é isso aí! Concordo!
Acho que só um detalhe da resenha pode ser discutido. Penso que apesar de profundidade técnica e artística da película, creio que os espectadores comuns também irão gostar da obra.
Abraço!
Fevereiro 21, 2008 às 6:35 pm
Thiago
Vinícius, essa é a primeira vez que comento no blog. primeiro meus parabéns pelo site, muito bom!
Concordo em quase tudo que vc comenta sobre Sangue Negro. Menos que é uma obra prima e que não seja semelhante aos outros trabalhos de PTA, pois ele já provava ser um grande diretor em Boogie Nights e Magnolia. Até mesmo no contestado Embriagados de Amor. Se passar no meu blog cerá a semelhança entre eles, cito em um paraágrafo na minha crítica ao filme.
Relamente é um filmaço, ficará marcado como um dos mlehores do ano, mas não de todos os tempos.
Com certeza é um dos favoritos para o Oscar e certamente abocanhará alguns prêmios, mas torço mesmo é por Day Lewis e Jonny Greenwood (trilha sonora).
Enfim, parabéns pelo ótimo blog!
Espero que visite meu e que possamos discutir mais
grande abraço!
Fevereiro 21, 2008 às 6:56 pm
Otavio Almeida
Vinicius, não gosto de chamar de obra-prima algo que eu vi outro dia. Mas entendo você. Está difícil não classificar SANGUE NEGRO de outra forma.
Abs!
Fevereiro 21, 2008 às 7:40 pm
Vinícius P.
Ramon. Acho que o filme deixa algumas coisas “no ar” e isso pode não agradar ao espectador comum – tanto que não fez o sucesso de bilheteria que merecia. De qualquer forma todos devem dar uma chance ao filme.
Thiago. Obrigado, irei visitar seu blog! ;) Eu sou fã do Paul Thomas Anderson e achei esse filme bem diferente dos outros dele – para mim seus trabalhos sempre foram muito parecidos, mas “Sangue Negro” foi algo novo em relação à sua filmografia. E infelizmente a trilha não foi classificada para o Oscar, mas sem dúvida o prêmio de melhor ator é do Day-Lewis!
Otavio. No caso eu tinha visto o filme há uma hora atrás antes de escrever essa crítica :) Não sei, gosto de valorizar os filmes da minha geração (talvez por não ser grande conhecedor do cinema antigo) e considero “Sangue Negro” uma obra-prima sim – e dificilmente mudarei de opinião, assim como ocorreu com “Magnólia”. Abraço!
Fevereiro 21, 2008 às 8:16 pm
Weiner
Vinícius, eu também classificaria “Sangue Negro” como uma obra-prima. É um filme que se vale muito de roteiro, direção, atuações, e é claro, quesitos técnicos. Como a reunião de tudo isto tende a tornar um filme perfeito, com “Sangue Negro” isto acontece.
Eu adoro Paul Thomas Anderson, especialmente seus trabalhos em “Magnolia” e “Boogie Nights”. Mas, sabe, Vinícius, ainda prefiro “Desejo e Reparação” como melhor filme do ano, mesmo que “Sangue Negro” já seja, de antemão, um novo clássico.
Abraço!!!!
Fevereiro 21, 2008 às 8:45 pm
André Renato
“Sangue Negro” é muito promissor, tem muitas qualidades positivas, mas acho que não é tão clássico assim quanto “O Tesouro de Sierra Madre” ou “Cidadão Kane”… Não que o filme seja ruim, mas é que pra chegar em níveis tão altos é preciso ser mais do que perfeito, coisa que eu não senti em Sangue Negro. Ele é só quase perfeito…
Fevereiro 21, 2008 às 9:30 pm
Vinícius P.
Weiner. Sou grande fã do Paul Thomas Anderson, adoro seus trabalhos anteriores – inclusive “Magnólia” ocupa a primeira posição na minha lista de melhores filmes de todos os tempos. No caso de “Sangue Negro”, já esperava algo espetacular, mas não imaginava que seria tão bom. Uma obra-prima para mim também, acho que todos esses fatores citados por você interagem de forma perfeita. Sem dúvida tem minha preferência no Oscar…
André. Por isso que não gosto muito dessas comparações, acho que tem pouco a ver. Acredito que “Sangue Negro” funciona por si só e é sim uma obra-prima – ao menos foi minha primeira impressão. Acho muito difícil o filme não resistir a uma revisão, afinal são tantos aspectos perfeitos que facilmente deve virar clássico.
Fevereiro 21, 2008 às 10:06 pm
Hudson
Assisti o filme nessa quarta-feira, e não vejo como expressar o quanto gostei dele. Certamente é o melhor entre os 5 indicados ao oscar e merece qualquer premio que levar. É perfeito. Realmente uma obra-prima.
Fevereiro 21, 2008 às 10:51 pm
Wally
Morar em buraco é fogo. [2]
Estou revoltado aqui…mas feliz com os elogios ao filme. Eu sabia que seria bom. Não sabia que seria tão bom…
Ciao!
Fevereiro 21, 2008 às 11:09 pm
Marco
Apesar de ter gostado muito de Boogie Nights e Magnólia eu entrei na sala para assistir Sangue Negro sem muitas expectativas. Acabei adorando o filme! Muito bom! Geralmente, quando eu vejo um filme eu tenho certas implicâncias, mas nesse eu não tive nenhuma. Nota 10, com certeza!
Fevereiro 21, 2008 às 11:38 pm
Vinícius P.
Hudson. Que bom ter gostado, mais um que acredita estar diante de uma obra-prima. Ficaria muito feliz ao menos com um Oscar de roteiro adaptado para o Paul Thomas Anderson – mas merece vencer em tudo que concorre.
Wally. Se o filme estrear até domingo por aí, depois me diz sua opinião, ok? De qualquer forma não esperava que fosse tão espetacular, realmente excelente.
Marco. Também não tive implicância alguma com o filme – e até esperava que isso fosse ocorrer por gostar demais dos outros trabalhos do Paul Thomas Anderson (“Magnólia” é meu filme preferido). Nota 10, torço por ele no Oscar!
Fevereiro 22, 2008 às 12:57 am
Romulo
Também é estranho classificar como obra-prima algo tão novo. Mas fazer o que? É sim uma obra-prima. E Paul Dano deveria ter sido reconhecido tanto quanto Day-Lewis.
Não achei tão agradável quanto Magnólia, mas isso é subjetivo mesmo. Sangue negro é de uma grandiosidade incrível. E pra qualquer um que dia ‘não se fazem filmes como antigamente’, poderemos dizer ‘Sangue negro’..
“I’m finished”
Fevereiro 22, 2008 às 12:33 pm
Otavio Almeida
Talvez vc tenha razão. Meu chefe diz que viu TOURO INDOMÁVEL no cinema. E na estréia. Ele me garante que reconheceu ali como obra-prima.
Mandou bem vc, rapaz!
Abs! Bom fim de semana!
Fevereiro 23, 2008 às 1:19 pm
Pedro Henrique
Sangue Negro é o melhor filme de 2007 na minha opinião. Porém, ainda torço por “No Country”.
Abraço!!!
Nota 9.0
Fevereiro 23, 2008 às 2:44 pm
Vinícius P.
Romulo. Adoro a atuação do Paul Dano nesse filme, também acredito que deveria ter sido reconhecido – ainda mais com tantas indicações do filme ao Oscar. “Magnólia” é meu filme preferido, portanto não achei “Sangue Negro” tão bom quanto ele, mas ambos são nota 10. Um novo clássico do cinema!
Otavio. Valeu pelo comentário! ;) Às vezes penso que o possível detectar uma obra-prima na primeira sessão, apesar disso acontecer raras vezes. Tudo é uma questão muito pessoal, mas recentemente posso citar os casos de “Ratatouille” e o próprio “Sangue Negro”, que me deixaram completamente encantado. Abraço!
Pedro. Como já disse outras vezes, será muito bom um reconhecimento aos irmãos Coen, entretando “Sangue Negro” tem minha torcida por ser bem melhor.
Fevereiro 24, 2008 às 2:12 am
Sangue Negro: exorcismo estilo Capitão Nascimento | Diário de um Policial Militar
[...] e Direção de Arte. A maioria dos blogs e sites especializados em cinema dão nota máxima. Esses caras todos não podem estar errados, [...]