Após o sucesso da animação israelense Waltz with Bashir, Cannes apresentou nesse segundo dia de competição o primeiro filme argentino da mostra oficial. Leonera, do renomado diretor Pablo Trapero (Família Rodante), conta a história de uma mulher presa pela morte de seu namorado e que dá a luz na prisão. O trailer (veja no Spoiler) mostra que apesar da trama forte, o longa tem as qualidades do cinema argentino e por isso mesmo foi bastante aplaudido na sessão realizada para a imprensa. Além da presença iluminada de Martina Gusman (bastante elogiada pela crítica e já uma das favoritas ao prêmio de interpretação feminina), o longa co-produzido por Walter Salles ainda tem a participação de Rodrigo Santoro no papel de um bissexual. O ator brasileiro, que ainda divulgará Che no Festival, se irritou durante a coletiva quando um jornalista elogiou Trapero por fazer um cinema diferente daquele observado no Brasil, típico para exportação. Sua resposta foi categórica ao afirmar que nossa produção não deveria ser generalizada dessa forma, uma vez que há ótimos filmes nacionais que não recebem a divulgação que mereciam. Com as polêmicas à parte, a questão é que Leonera mostrou que o cinema argentino ainda continua em alta e os latinos terão grande destaque nessa 61ª edição do Festival.

Comentários da imprensa [favorável desfavorável dividido]

Além do visual extraordinário, grande parte do sucesso de Leonera se deve ao desempenho de Martina. Esposa do diretor e produtora dos filmes anteriores dele, não é um caso de obsessão irracional de seu parceiro, algo já responsável pelo fracasso de muitas produções. Gusman está perfeita.” Howard Feinstein (Screen Daily)

De um tempo para cá, alguns colegas e amigos críticos no Brasil estão trabalhando duro para desativar essa noção até certo ponto benevolente para com o cinema argentino. Mesmo assim, não consigo olhar para um Leonera com desprezo, especialmente se compará-lo à nossa média nacional que, para mim, permanece, com as obrigatórias raras exceções, das mais lamentáveis.” Kleber Mendonça Filho (Jornal do Commercio)

O filme resume aquilo que a gente sempre define como as qualidades do cinema argentino. Histórias simples, humanas, bem narradas e interpretadas.” Luiz Carlos Merten (Estadão)

Pode levar algum tempo para perceber que o filme vai além de outros longas protagonizados por mulheres na prisão, porém o desempenho extraordinário de Martina Gusman é abençoado.” Deborah Young (The Hollywood Reporter)

Freqüentemente Leonera vaga em territórios comuns, entretanto seu estilo global e a corajosa atuação de Gusman têm grande participação para recomendá-lo.” Jay Weissberg (Variety)

 

Cannes Watch: apesar de elogiado, aparentemente Leonera não é um grande filme, portanto acho complicado figurar entre os melhores do Festival na premiação da próxima semana. Interessante que todos os críticos fizeram elogios à atuação da Martina Gusman, a qual se junta a Julianne Moore na lista de prováveis candidatas ao prêmio de melhor atriz.

Já no seu segundo dia de competição, o 61º Festival de Cannes apresentou a animação Waltz with Bashir (ou Valsa com Bashir). O longa do israelense Ari Folman tem uma narrativa em forma de documentário que foi considerada inovadora, tendo certa semelhança com Persépolis (um dos maiores sucessos do Festival do ano passado) especialmente no sentido de trazer um tema complicado para um gênero tipicamente “infantil”. Outra semelhança é que novamente o diretor também é protagonista da fita, a qual tem como pano de fundo os conflitos no Oriente Médio. Folman é um soldado que se envolve na invasão ao Líbano no início dos anos 80, construindo um interessante painel histórico através de uma técnica de animação pouco convencional (já usado em alguns trabalhos do Richard Linklater, como o recente O Homem Duplo) que traz uma trilha de rock lembrando a época. Como afirmou o G1, o longa foi igualmente “indigesto” como Cegueira para ser exibido antes do jantar de abertura do Festival, mas ao contrário do filme de Meirelles, foi recebido com uma autêntica salva de palmas.

 

Comentários da imprensa [favorável desfavorável dividido]

Lidando com um ponto de vista muito pessoal sobre a incursão israelita no Líbano em 1982, este não só é um filme de anti-guerra tremendamente potente mas também uma acusação de moral formidável da conduta israelita naquele momento.” Dan Fainarua (Screen Daily)

Ari Folman parece conseguir se desvencilhar da sombra com um final inegavelmente potente que parece entender muito bem o significado e o peso de imagens, especialmente num filme que repensa toda uma idéia de documento.” Kleber Mendonça Filho (Jornal do Commercio)

“Waltz with Bashir é imediatamente menos acessível que Persépolis, mas é muito diferente apesar das semelhanças quanto ao tema central. Com Folman na forma de narrador ‘entrevistando’ outros soldados, freqüentemente alcança resultados surpreendentes.” Leslie Felperin (Variety)

Sei não, mas fiquei com aquela impressão de que acabo de assistir a um dos possíves premiados do Festival de Cannes. E logo de cara!” Luiz Carlos Merten (Estadão)

 

Cannes Watch: É possível que Waltz with Bashir seja premiado com a Palma de Ouro, até porque o Spoiler confirmou que Sean Penn dará mais atenção aos filmes com tema político. Entretanto, por ser uma animação, acho mais provável repetir o prêmio do júri vencido por Persépolis no ano passado, ou mesmo o Grande Prêmio se tiver um pouco mais de sorte.

 

Já fora de competição, o destaque desse segundo dia é outra animação. Kung Fu Panda tem no elenco os astros Jack Black, Angelina Jolie e Dustin Hoffman e já recebeu uma crítica bastante positiva do Screen Daily (aqui), a qual afirmou que o filme tem todos os bons elementos para o entretenimento familiar e que apenas Wall-E tem chances de superá-lo como melhor animação dessa atual temporada. Ainda afirma que certamente será um dos filmes mais lucrativos do verão americano. Angelina Jolie, que está com Changeling em competição (novo longa do Clint Eastwood), novamente foi a grande sensação e se torna uma figura constante nesse tipo de evento - ano passado esteve com O Preço da Coragem no Festival. Aliás, não se fala de outra coisa na imprensa do que a confirmação que a atriz está grávida de gêmeos. Os três astros foram um dos destaques de Cannes logo cedo, sendo que Angelina também compareceu à abertura ontem de noite - na qual Cegueira recebeu cinco minutos de aplausos, sem dúvida uma recepção bem melhor do que aquela observada na sessão para a imprensa.

Com recepção fria, Cegueira abriu a 61ª edição do Festival de Cannes nessa manhã (lá de tarde) de quarta-feira. A sessão para a imprensa teve poucos aplausos e já mostrou aquilo que deve ocorrer daqui para frente: a obra baseada no livro de José Saramago é um filme difícil à primeira impressão e que facilmente dividirá opiniões. Não sei se essa sensação indiferente ao filme é a mesma observada com O Jardineiro Fiel (que particularmente considero excelente) ou se Meirelles terá seu primeiro fracasso, mas no geral as opiniões têm sido favoráveis no que diz respeito ao aspecto visual da produção e também as interpretações de todo o elenco. É o típico caso de filme que faz pensar muito e que pode causar uma reação estranha no primeiro momento, porém certamente terá grande repercussão. À noite Cegueira terá sua exibição de gala, mas vários dos envolvidos com o filme já estão lá: além de Meirelles, compareceram ao Festival os astros Julianne Moore e Gael García Bernal, além de Alice Braga, Danny Glover, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura e o roterista Don McKellar.

Comentários da imprensa [favorável desfavorável dividido]

Ainda que seja inferior a seus filmes anteriores, Cegueira é um quadro duro e exigente que contém algumas cenas poderosas e pouco fáceis de assistir. Provocativo, pergunta aos espectadores sem fazer julgamentos de valor sobre o seu comportamento em crises extremas, contemplando a fragilidade perigosa da ordem social e em última instância o espírito coloetivo de humanidade.” Emanuel Levy

O filme, que adapta fiel e assustadamente os escritos de Saramago, sugere inúmeras idéias sobre nossa incapacidade de enxergar o que sempre esteve ali, ou de perder a capacidade de reconhecer imagens que nós sempre tivemos. Parece cair como uma luva não só para o filme, mas também para essa inesperada atividade de ver cinema e tentar apreendê-lo.” Kleber Mendonça Filho (Jornal do Commercio)

De fato, o filme exige estômago. Não só para ultrapassar os primeiros minutos, um tanto truncados, em que os personagens vão ficando misteriosamente cegos, mas para dali em diante suportar a crescente degradação humana dos doentes que são abandonados em um sanatório à própria sorte.” Diego Assis (G1)

Apesar do forte desempenho de Julianne Moore como uma solitária figura que mantém sua visão e testemunha os horrores ao redor dela, o drama de Fernando Meirelles raramente alcança a força visceral, âmbito trágico e ressonância humana da obra de Saramago.” Justin Chang (Variety)

Eu especialmente estava esperando um filme que evitaria qualquer tentativa rigorosa de empurrar metáforas na face de espectador. Isso é justamente o que Cegueira faz por via da narração de Danny Glover. Este é primeiro erro. O segundo é que não queria ser aderido àquele inferno no qual fui forçado a testemunhar o comportamento assassino e tirânico dos cegos brutos.” Jeffrey Wells (Hollywood Elsewhere)

Há um desafio considerável para superar a obra de Saramago, mas Cegueira é um filme provocativo. Entretanto, também é cinema previsível: assusta, mas não surpreende. Removendo uma fábula do conforto da página impressa para um filme às vezes pode conduzir a sua própria cegueira.” Kirk Honeycutt (The Hollywood Reporter)

Fiquei impressionado com o tratamento visual que Fernando Meirelles e o fotógrafo César Charlone dão ao tema da cegueira branca que se constitui na metáfora de José Saramago em seu filme. As interpretações são maravilhosas - Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga -, mas na maior parte do tempo senti uma admiração fria.” Luiz Carlos Merten (Estadão)

 

Cannes Watch: a recepção dividida indica que não deve surpreender como 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias no ano passado, mas é possível enxergar algum prêmio se o júri compreendeu a visão de Meirelles sobre a obra de Saramago. O destaque é a Julianne Moore, que surge como forte candidata ao prêmio de melhor atriz, enquanto o fotógrafo César Charlone tem chances de conquistar o prêmio técnico.

Prestes a estrear no Festival de Cannes (que ocorre na próxima semana), foi divulgado o primeiro de Vicky Cristina Barcelona, novo filme de Woody Allen. A trama segue duas americanas que passam determinado tempo em Barcelona: Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson). Com personalidades bem diferentes, acabam se envolvendo romanticamente com o pintor Juan Antonio (Javier Bardem), o qual ainda tem uma relação com a ex-esposa Maria Elena (Penélope Cruz). O teaser não mostra tanto e nem tem diálogos, mas já deu para perceber que será uma obra de alto teor sexual, inclusive com cenas picantes entre Bardem, Johansson e Cruz (sendo que as atrizes também têm uma cena mais ousada). Não estou muito certo de que o filme será melhor do que o excelente O Sonho de Cassandra, mas com certeza deverá ser o longa mais polêmico do diretor e deve agitar Cannes nos próximos dias - segundo o Festival, Vicky Cristina Barcelona é uma divertida e mente aberta celebração de Woody Allen ao amor em todas as suas formas. [via /Film].

Já chegando à sexta lista do American Film Institute (só para recordar, as anteriores foram Fantasia, Comédia Romântica, Gângster, Drama de Tribunal e Animação), temos um gênero bem aguardado: Mistério. Pela lista do AFI, há muitos trabalhos do mestre do suspense Alfred Hitchcock, além de englobar uma grande quantidade de fitas no estilo noir. Novamente repito que apenas filmes americanos são aceitos, portanto algumas fitas ditas “estrangeiras” ocasionalmente ficaram de fora - o que não diminui a relevância da seleção do AFI, uma vez que esta contêm grandes clássicos do cinema. E mais um aviso: filmes que não estão nos pré-finalistas não serão aceitos, algo que ocorreu bastante na mais recente votação. Como sempre, deixo a definição do gênero pelo Instituto:

É um gênero que envolve a solução de um crime. Cercado pela imprevisibilidade da natureza humana e repleto de tramas conspiratórias, mistério habita um mundo onde os segredos são sombrios e as ações bem escondidas. Ao contrário da maior parte das situações na vida real, um filme de mistério entrega a última satisfação da solução de um caso em seu desfecho.”

O método de votação continua o mesmo, com os participantes enviando seus dez favoritos (ou menos, se preferir) da lista disponível abaixo para o e-mail vinniciusfarias@hotmail.com. Se possível, informem seu preferido dentre todos (para caso de desempate), sendo o prazo máximo de envio até a meia-noite da próxima sexta-feira. Aguardo o voto de todos!

À Beira do Abismo (1946)
À Meia Luz (1944)
Acerto de Contas (1987)
Amnésia (2001)
Assassinato em Gosford Park (2001)
Assassinato no Expresso Oriente (1974)
O Cão dos Baskervilles (1939)
A Ceia dos Acusados (1934)
Charada (1963)
Chinatown (1974)

Cidade dos Sonhos (2001)
Cidade Nua (1948)
A Conversação (1974)
Um Corpo que Cai (1958)
Os Corruptos (1953)
A Dama de Shanghai (1947)
O Destino Bate à Sua Porta (1946)
O Diabo Veste Azul (1995)
Disque M Para Matar (1954)
D.O.A. - Com as Horas Contadas (1950)

O Falcão Maltês (1941)
O Fim de Sheila (1973)
O Fugitivo (1993)
O Grande Lebowski (1998)
O Homem que Sabia Demais (1956)
A Identidade Bourne (2002)
Intriga Internacional (1959)
Janela Indiscreta (1954)
O Jogo de Emoções (1987)
Jogo Mortal/Trama Diabólica (1972)

Klute - O Passado Condena (1971)
Ladrão de Casaca (1955)
Laura (1944)
A Lista de Adrian Messenger (1963)
Los Angeles - Cidade Proibida (1997)
A Morte Num Beijo (1955)
No Calor da Noite (1967)
No Silêncio da Noite (1950)
Quando Fala o Coração (1945)
Rebecca - A Mulher Inesquecível (1940)

Seven - Os Sete Crimes Capitais (1995)
Suspeita (1941)
Os Suspeitos (1995)
Um Tiro na Noite (1981)
Veludo Azul (1986)
Vidas em Jogo (1997)
O Vingador Invisível (1945)
Vítimas de uma Paixão (1989)
O Terceiro Homem (1949)
Um Tiro no Escuro (1964)

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